Sobre a Arte…

“Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas (1956)

2020 está sendo um ano estranho, intenso e muito diferente! Enxergar o que está à frente é um enigma, o futuro parece encoberto pela nuvem do não saber. Quantas vezes estamos a um passo de uma reflexão, de uma elaboração sobre nós mesmos e nos perdemos no outro e acabamos sem saber? Então, seguimos tateando, experimentando e como disse Guimarães Rosa “…pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” 

Vi essa tirinha bem no início da pandemia no @souocaos.frases e achei o máximo! Pensei comigo: “até que ponto estava deixando rolar, seguindo hábitos e costumes e de repente, tudo foi remexido. E pergunto, o quanto me permito aprender sobre o medo e a coragem durante a travessia que vivemos?”

E encontro respostas – não nas coisas do cotidiano – mas na Arte, assim, com letra maiúscula! A Arte instiga, provoca, tira do lugar comum e desperta. Quem nunca foi movido por uma música, livro, uma pintura, uma cena de filme e sentiu-se transportado pra outro lugar, outro sentimento, outra história de si mesmo?

Sinto mais presença e força em mim quando vejo/ouço/sinto na Arte expressões que me representam.   Foi desse modo que, desde o início da pandemia ouvindo a leitura pública de Élida Marques, do Grande Sertão: Veredas, no canal do Youtube “Ler é Uma Viagem” (uma das melhores coisas que me aconteceu nesse tempo), estou aprendendo, que o medo não só paralisa, mas que pode ser potência e que seu oposto, não é a coragem, mas sim o amor. O autor cita: “Só se pode viver perto de outro e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor, qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Diante disso e dada minha vivência e interações, percebo ainda muitas pessoas com receio de fazer terapia, por medo do estigma ou medo das decisões que ela apresentará, como, por exemplo: “se fizer terapia vou me separar”.  Sempre falo para meus pacientes que “terapia é um ato de coragem”, porque o que vamos ‘descortinar’ ou trazer à tona é o próprio jeito da pessoa e como esse jeito está impactando suas escolhas. Com isso, e com tempo será possível abrir novas possibilidades de escolha de estar no mundo, para alcançar maior liberdade de Ser. Não estou dizendo que seja fácil, mas aproveito das palavras de Guimarães Rosa quanto a descobrir o amor: “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Que tal, sentiu-se inspirado(a)?

Um grande abraço, Egle.