Saindo do isolamento…

“Queria que tudo voltasse ao normal”, “quero minha vida de volta”, “que saudade da rotina pré-pandemia”. Dificilmente você não ouviu alguém repetindo essas frases no último ano – ou já não falou para si mesmo muitas vezes, e agora com a vacinação a todo vapor (apesar de ainda não estarmos perto do fim da pandemia), com as regras cada vez mais flexibilizadas, muitos de nós estamos experimentando uma certa dificuldade em sair para espaços públicos.

Em geral, paira um sentimento de que não estamos protegidos, seguros e que estar num ambiente controlado significa que nada vai nos acontecer ou com quem amamos. Essa “sensação de perigo” gerada pelo estresse do momento em que vivemos tem sido experimentada, cada vez mais, por jovens que estão retornando às aulas e é importante a família e a escola dar voz e acolher esse sentimento.

A situação da saúde mental entre os jovens já é um assunto que preocupa a todos. Em uma geração que tem dificuldade em lidar com a frustração, a pandemia impôs uma dura realidade de medo, restrições e regras gerando grande impacto emocional. 

A volta à escola é importante porque a adolescência é marcada pelos grupos e é na convivência com os outros que o jovem vai aprendendo novas maneiras de enfrentar a vida, para além do grupo familiar. 

Com o isolamento muitos deixaram de experimentar essa vivência e por isso, a volta à escola é necessária, mas sem esquecer que o motivo do medo e da angústia é real.  Assim, a escola deve ser cada vez mais pensada como um lugar não apenas de transmissão de conteúdo, mas como um espaço de saúde mental e de pertencimento. 

Para compreendermos melhor a situação em que alguns jovens se encontram nesse momento, o psiquiatra da infância e adolescência e professor da USP Guilherme Polanczyk (*) explica que “esses jovens, na maior parte das vezes, já apresentavam algum tipo de transtorno mental, frequentemente um transtorno de ansiedade antes da pandemia, ou, pelo menos, sintomas, e com esse estressor grande que a pandemia constitui, realmente apresentaram uma piora”.

Para muitos alunos, o ensino on-line é efetivo, pode economizar tempo e, segundo o professor, “eles se sentem mais confortáveis em casa, ainda conseguem manter contato com os amigos, eventualmente até encontrá-los, e aí muitos têm resistência em sair desse modelo que, de alguma forma, está funcionando”. 

“A depressão, por outro lado, faz com que a criança ou adolescente tenha uma falta de energia e disposição, um sentimento negativo em relação à vida e a si própria e, sem dúvida, isso interfere na realização das atividades escolares”, afirmando ainda que “muitas vezes, em casa, o ensino on-line está sendo feito de uma forma parcial, então assistem às aulas deitados na cama, ou não assistem, deixam a câmara ligada, as provas eventualmente são feitas com consulta. Então, a retomada da aula presencial significa um esforço maior a uma necessidade realmente de dedicação e, para alguém que está deprimido, isso é algo muito difícil”.

A família deve funcionar como um termômetro, os pais conhecem seus filhos, sabem o que esperar ou não deles e quais são atitudes passageiras, se identificarem alguma mudança é preciso procurar auxílio da escola. E, dependendo do caso, de um profissional da área da saúde.

Para ajudar quem está enfrentando essa situação especialistas sugerem manter um diálogo aberto e uma escuta atenta aos sentimentos dos jovens, valorizando-os, para que se possa auxiliá-los na retomada das atividades. Também é importante tentar manter as amizades por perto, mesmo que seja on-line, pois afastar ou evitar os amigos pode complicar mais ainda a situação. Ao mesmo tempo é essencial promover estímulos que vão para além das telas e das gratificações com a comida, utilizando a criatividade na dinâmica familiar. 

E por fim, criar um espaço de confiança na rede de apoio onde o jovem possa se em sentir segurança, pode fazer a diferença antes do quadro se agravar.

* https://jornal.usp.br/atualidades/sindrome-da-gaiola-caracteriza-jovens-que-nao-querem-contato-com-o-mundo-exterior/