Reflexões Cinematográficas

Adoro cinema! Desde que me lembro sinto um enorme prazer em “pegar um cineminha”. Mesmo quando o filme é um lixo, fico lá torcendo para que melhore. Só que às vezes – e pena que tem acontecido mais e mais nos dias de hoje – não aguento os filmes formatados apenas para ganhar dinheiro. Não consigo ver nem de brincadeira!

Com certeza, esse não é o caso de  Blue Jasmine  e Nebraska, ambos de 2013.  Com direção de Woody Alen e Alexander Payne, respectivamente, os filmes tem histórias que convidam à reflexão e seus protagonistas dão um show de interpretação (eles ganharam merecidos prêmios).

Assisti primeiro Blue Jasmine. O quê é aquela última cena? Um verdadeiro “soco no estômago”! Pra quem não assistiu a idéia do filme é a seguinte: uma rica mulher de Manhattan, que basicamente se ocupa de sua posição, vê seu marido ser preso, perde tudo e acaba morando de favor na casa da irmã, em São Francisco, onde tem que lutar por seu ganha-pão. O problema é que ela não se encontra nessa nova vida, bem que a irmã ainda tenta apresentar um contraponto, mas quando uma chance de voltar aos bons tempos aparece ela a agarra da forma como pode, isto é na superficialidade. A partir desse ponto a história se desenrola até que a realidade vem ao seu encontro e desemboca na sensação de “soco na boca do estômago” que mencionei no início.

Nebraska vi algum tempo depois, em branco e preto, mais lento, o filme, desde o início convida a um olhar que não estamos acostumados.  Um idoso, com certo comprometimento mental por sua longa história com a bebida, acredita que ganhou um milhão de dólares e precisa ir até Nebraska, há alguns estados de distância de sua casa, recolher o prêmio.  O que acontece é que ele não pode mais dirigir e como ninguém quer levá-lo, pois sabem que o tal prêmio é um jogo publicitário, decide ir a pé. Depois de várias tentativas mal sucedidas de seguir caminhando até seu destino, seu filho mais novo resolve levá-lo de carro numa forma de acalmá-lo. Como nos “roadie movies”, as experiências que vivem ao longo do caminho abrem novas histórias, inclusive as do passado, e acabam propiciando um novo encontro entre pai e filho.  

A essa altura você pode estar se perguntando, mas o que eles têm em comum?

Pois é, de início vi o momento histórico em que vivemos, as coisas tendo seu valor ditadas por sua utilidade ao nosso bem-estar e conforto; como acabamos por nos perder na superficialidade do fazer e não do saber, como pontos em comum destas histórias. Conforme os acontecimentos foram se desenrolando senti que elas tomaram caminhos diferentes. A mulher que já não sabe mais o seu lugar, luta com tudo o que pode para a manutenção do que conhece até perder-se – aí o “soco no estômago” que falei no começo.  Ela nos mostra como a relação com o tempo mudou nos dias de hoje; como a tecnologia tornou nossas relações com o mundo mais imediatistas e com isso, como muitas vezes não nos percebemos e ficamos impossibilitados de ver que nos congelamos num único modo de ser, incapazes de reconhecer outros modos e incapazes de nos abrirmos para novos projetos.

Em Nebraska, de cara os personagens aparecem congelados na maneira de se relacionar, mas o desejo do pai em querer recolher o dinheiro suscita novas questões para os velhos padrões existentes e é a partir daí que a compreensão se abre. Não há milagre. É no estar junto, no acolhimento e no diálogo que outras possibilidades de compreensão vão aparecendo. O filho mais novo – que já se perguntava se a vida é só isso – entende no encontro com o pai como eles chegaram ao ponto em que estão e escolhe tomar outro rumo. Inclui em vez de afastar e encontra a harmonia há muito perdida.

Em resumo, pra mim é isso, Blue Jamimine e Nebraska nos convidam à reflexão: ficar preso num único modo de ser ou escolher a escolha?