“Atraverssiamo”

Há dias dialogando com uma paciente me veio à mente a linda palavra italiana ATRAVERSSIAMO, foi como se tivesse voltado às páginas do livro “Comer, rezar e amar” de Elizabeth Gilbert que li há tantos anos. No livro a personagem conversando com seu professor se enamora do som da palavra: _ “Que palavra linda!”, diz.  O professor responde que é só uma palavra comum que significa “vamos atravessar” e ela responde:  _ “Não, é uma perfeita combinação de sons italianos, o sussurro de um ah, o trinado ondulante do T e o suave S, hummm … de verdade, amei!”. Lembrei-me dessa palavra conversando sobre a pandemia que vivemos e como podemos nos sentir paralisados frente a ela. 

A descrição de ATRAVERSSIAMO, feita pela personagem Liz (e alter ego da autora) parece percorrer um caminho entre “o sussurrante ahh”, até a chegada na “suavidade do S”, foi uma inspiração pra lembrar que a vida é movimento, impermanência como dizem os orientais e que com toda sua dureza e sofrimento a pandemia tem nos empurrado pra fora da nossa zona de conforto, nos forçando a arriscar o novo e a lidar com nossos medos. Sim, não é fácil sair do aconchego da rotina, que parece oferecer segurança, mas quando enfrentamos nossos desafios existe sempre a possibilidade de nos tornamos mais confiantes em nossos limites e capacidades e justamente, por sair de nossa bolha de segurança acabamos nos deparamos com opiniões e pontos de vista diferentes dos nossos e podemos vir a aprender a sermos mais resilientes, tolerantes e flexíveis com as divergências da vida.

E o medo, o que fazer com ele?

O medo é um sentimento comum a todo ser humano quando se sente exposto ao perigo e serve para nos proteger. O problema é que muitas vezes expressamos o medo paralisando e é importante perceber quando isso acontece, porque a partir do momento que ele nos impede de fazer as coisas comuns do dia a dia é preciso atenção e ajuda especializada.

Só que o medo não só paralisa, ele pode fazer outras coisas, e quero falar dele como uma potência. O grande escritor Guimarães Rosa em seu livro:  Grande Sertão: Veredas, nos dá um exemplo do como o amadurecimento da coragem, do medo e do amor que costuram o miolo da experiência de Riobaldo e Diadorin pode ser potência. Em certa altura do livro Riobaldo diz: _ “Quem me ensinou a apreciar todas essas belezas foi Diadorin. Diante da morte – a gente desfrutou da vida que a gente veio viver.” Eles juntaram as forças, criaram energia, encararam o medo e fizeram a travessia.

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Então, voltando ao ATRAVERSSIAMO, sabemos que tudo passa, que há possibilidade de escolhas e é possível lidar criativamente com o medo enquanto o sentimos. Em minha experiência, o primeiro passo é poder identificar que você está sentido medo, porque o problema não é sentir medo, lembra, todos nós sentimos! O que não podemos é negligenciá-lo por causa de julgamentos e fingir que não o sentimos. Feito isso, é importante perguntar pra esse medo o que ele está querendo lhe dizer, escutar o que ele quer é um grande passo pra desenvolver formas de lidar com ele. Então pergunte: _ Medo, o que posso fazer pra que você diminua? Pequenas experimentações, tornam-se ações que aos poucos, no seu ritmo vão transformando o seu jeito de lidar com o medo, até que ele não seja mais algo que te impeça de ter uma qualidade de vida e saúde mental. 

Quando nos permitirmos fazer as travessias a que somos constantemente chamados é possível que nos surpreendamos vendo a vida de outra maneira, pois, aprendendo com as situações e cuidando a cada passo do caminho chegamos mais ricos do outro lado, só pra encontrar uma nova travessia.