AFETOS, EMOÇÕES E SENTIMENTOS, QUAL A DIFERENÇA?

Muitas pessoas tem dificuldade em discernir e por consequência, em nomear o que as afeta, melhor dizendo, como são tocadas pelo mundo.
Aquilo que nos toca também nos convoca, demanda uma resposta e a essas respostas podemos chamar de emoção.
Saber como sou afetado ou seja, como recebo as coisas do mundo é importante para poder escolher o que fazer com aquilo que me tocou e se necessário, como transformar?
São as emoções que dão origem aos sentimentos. Enquanto as primeiras se referem a uma reação instintiva, uma resposta neural para os estímulos externos, tal como o choro ou o riso, os sentimentos, em geral, refletem como a gente se sente frente a uma emoção. São duradouros e muitas vezes fáceis de esconder. Se um está ligado ao corpo, ao exterior, o outro faz parte do universo da mente, do interior.
Você sabe que são seis as emoções básicas descritas por Darwin em “A expressão das emoções no homem e nos animais” (1872)?

  1. MEDO E RAIVA (fuga ou ataque) ligados ao corpo e a inteligência, por que envolvem julgamento de atacar ou fugir, elas nos direcionam para a ação, seguir em frente.
  2. ALEGRIA E TRISTEZA nos focam no presente, ligadas ao ambiente, nos fazem reverberar contentamento, satisfação (latim SATIS – é o bastante) ou insatisfação. Tem a ver com encontros, bons encontros ou maus encontros, aumento de potência e diminuição da potência.
  3. SURPRESA E NOJO estão relacionados com nossa interpretação dos sistemas de expectativas, como estamos no tempo, como estamos em relação a uma certa previsibilidade ou de controlabilidade que vamos formando na consciência a partir da interpretação da nossa história.

Os sentimentos refletem como nos sentimos frente a emoção.
Deste modo, podem traduzir afetações que não são só baseadas no que vem de fora, mas também no que vem de dentro, afinal, nossas percepções também estão conectadas à memória, melhor dizendo, eles traduzem como os estímulos externos se conectam com os estímulos internos e nesse circuito formam uma certa receptividade ou resistência em relação àquilo que nos afeta.
Existem também sentimentos que traduzem como partilhamos com os outros nossas afetações, formando uma espécie de “paisagem social”, de atmosfera na qual as interações vão se dar. Por exemplo, pode acontecer do sentimento geral ser de medo, a tendência será de procurar segurança e de entregar para alguém que confio a minha segurança, ou seja, do reconhecimento do sentimento geral (medo) volto para o sentimento particular (segurança).
Os sentimentos que produzimos juntos, podem ser de alegria e de medo, mas podem ser sentimentos mais complexos, como solidariedade, estranheza, pressa ou de lentidão, isso tende a afetar nosso circuito de afetos, ou seja, a produção das emoções vai afetar a gerência dos nossos sentimentos.
Nós podemos, em parte, modular essa cadeia, agindo sobre ela, como por exemplo, posso escolher o que fazer com algo que os outros fizeram comigo.


Mas, porque isso é importante?


Na vida com a pandemia fomos obrigados a conviver mais de perto com maridos, filhos, parentes e com isso, em muitos casos, houve uma alteração na dinâmica entre presença e ausência, com o excesso de presença parece que os afetos alcançaram um platô, meio indiscernível de indiferença. Por exemplo, se o outro gosta de música alta e você tem que lidar com isso, há uma possibilidade de você compensar se desligando e se ausentando emocionalmente.
Hoje, se formos observar bem, quanto realmente estamos ali presentes um com o outro? Em geral, como resultado desse afastamento entramos numa monotonia de sentimentos, gerada pela indiferença, que pra ser rompida precisará de uma intensidade de emoção muito forte e aí que aparecem as crises de raiva, de grito, de choro e de tristeza.


Então, como cuidar do modo como sou afetada pelas coisas do mundo?


Entrar em contato com as emoções e sentimentos, aprender a discernir o sofrimento para lidar com ele, introduzir movimento de alternância entre presença e ausência, respeitar o silêncio e criar um espaço de cuidado de si.
Vivemos um estado transitório de incertezas e dificuldades, isto é, passamos por uma crise, do verbo grego “Krinein” que também está na origem de crítica, e significa distinguir, discernir, interpretar, explicar uma questão, julgar, apreciar, decidir. Assim, o momento nos convida a compreensão de nós mesmos, o que pode propiciar abertura nas possibilidades do meu existir, ao discernir como sou afetado, posso aprender com as emoções e os sentimentos. Em vez de reagir, agir! O que fazer com aquilo que apareceu? Posso por exemplo, criar uma música, uma história, um quadro, uma dança, transformando como sou afetado por aquilo q vem ao meu encontro em um viver mais prazeroso e empático